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GRÉCIA
Se existe um lugar para
onde todo mundo quer ir, este lugar é a Grécia. Pois só aqui, entre
paisagens magníficas e ruínas milenares, os mitos vencem a História e
os sonhos navegam em mares de um azul impossível
No filme O Silêncio dos Inocentes, com Jodie Foster e
Anthony Hopkins, há uma frase excepcional, que serve para muitas coisas -
e até mesmo para entender por que a Grécia faz parte do imaginário de
qualquer turista que se preze. Quando Clarice, a aplicada agente do FBI,
pede uma pista do assassino ao doutor Hannibal Lecter, o psiquiatra que
nas horas de folga janta o fígado de suas vítimas com vinho chianti, ele
responde: "Clarice, nós cobiçamos o que está perto." Com
isso, Lecter quer dizer que o desejo está associado ao que se vê,
conhece, convive.
A Grécia,
que já tinha uma imagem rica, mítica e misteriosa, ficou muito mais
interessante e divertida do que qualquer bronca de mãe ou livro escolar.
E o que já era bom ficou ainda melhor quando Onassis, que não era bobo
nem nada, percebendo que o negócio de fabricar navios jamais seria o
mesmo depois da Segunda Guerra Mundial, resolveu empregar uma parte de sua
frota para fazer cruzeiros pelo Mar Egeu, de águas calmas e de um azul
profundo quase inverossímil. Claro que, antes dele, os cruzeiros já
existiam - o que mudou foram os convidados e o glamour que passou a
cercá-los. Como a propaganda é a alma do negócio, o marqueteiro Onassis
aparecia em tudo quanto é lugar rodeado de beldades e com um bronzeado de
fazer inveja ao mais praieiro dos nordestinos. Com isso, vendeu a imagem
de que a Grécia é um lugar solar, iluminado, sofisticado e com encantos
suficientes para seduzir o mais relutante dos mortais - e vendeu bem
(atualmente cerca de 10 milhões de turistas vêm para cá todos os anos)
porque a mercadoria era boa.
Pouco antes disso, houve o filme Zorba, o Grego, com
Anthony Quinn, que, apesar de ter sido rodado em preto e branco, promovia paisagens belíssimas e a idéia de
que qualquer pescador grego, por mais rude que fosse, era um poço de
sabedoria. Como se não fosse suficiente, em 1988, foi a vez de o cinema
se sair com Shirley Valentine, o filme no qual uma solitária dona de casa
cinqüentona redescobre a alegria de viver. Para tanto, ela compra uma
passagem para Mikonos, uma ilha esplêndida no meio do Mar Egeu, e, num
pôr-do-sol soberbo na praia de Agios Iannis, conquista um grego viril de
bigodes fartos, numa variável de uma velha brincadeira segundo a qual,
para curar um amor platônico, só mesmo uma transa homérica (como efeito
colateral, o aeroporto de Mikonos passou o ano seguinte recebendo centenas
de vôos charters saídos de Manchester, na Inglaterra).
Com um currículo desses, basta ouvir falar em Grécia
para que uma luzinha se acenda no cérebro dos brasileiros. Experimente,
faça o teste: diga para um amigo ou, principalmente, amiga, que está
indo à Grécia. Imediatamente a cabeça dele, ou dela, ficará povoada de
um monte de imagens e sensações que têm tudo para desembocar num
suspiro pois, isso é um fato, o imaginário sobre a Grécia provoca
suspiros: o romantismo das ilhas, a sofisticação dos cruzeiros, as
praias paradisíacas, o sonho de estar debaixo do sol e entre casinhas
brancas e o azul do mar, o encontro do Oriente e o Ocidente, a presença
dos deuses, a grandiosidade dos templos, o mistério das ruínas e por aí
afora. E aqui está a maior das provas: seu amigo ou amiga suspiram pela
Grécia como suspirariam pela atriz do momento ou o galã mais cobiçado
de Hollywood, mesmo que eles estejam a um oceano de distância. E o fato
é que você não precisa conhecê-los pessoalmente para povoar seus
sonhos com as curvas da atriz ou os memoráveis contornos do ator. Ou
seja, nós cobiçamos o que está perto, mesmo que isso esteja longe.
Da mesma forma, você tem um monte de informações,
idéias e imagens a respeito da Grécia, mas é preciso estar aqui para
descobrir que você não sabia nada. Ou melhor, é imprescindível pisar
aqui para comprovar que a força da mitologia, a beleza das ruínas e o
encanto das ilhas de fato existem, mas que o fascínio da Grécia vai
muito além disso. Pisar numa praia grega pela primeira vez é uma grande
experiência - a começar do fato de que, para chegar a ela, você
participou de um cruzeiro pelo Mar Egeu. E certo que existem cruzeiros de
todos os tipos - em navios luxuosos, quase exclusivos, em embarcações
menores, em iates, em veleiros, praticamente em qualquer coisa que flutue
com segurança. Mas, de qualquer forma, o tipo mais comum são os ferries,
que, a despeito da sofisticação da primeira classe, também têm nada
sofisticados mochileiros de todas as partes do mundo (muito mais duros do
que você) e senhoras ortodoxas vestidas de preto dos pés à cabeça. Ou
seja, o mito e a idéia que você fazia da Grécia estavam corretos, mas
você jamais poderia desconfiar o quanto havia ainda a descobrir.
Há muitas e muitas ilhas por aqui - na verdade, 3 mil
ou mais ninguém sabe ao certo, das quais apenas cerca de 100 são
habitadas (o resto são apenas pedregulhos boiando no mar). Dentre todas
elas, peguemos então Mikonos como exemplo, uma das ilhas do arquipélago
das Cíclades. O lugar é um paraíso, seja pelo charme de suas casinhas
brancas, seja pela beleza de sua natureza ou mesmo pelo fato de que, em
suas praias, quase todos estão como vieram ao mundo, confirmando a tese
de que, na Grécia, só há dois tipos de praia: as em que é permitido
tirar a roupa e as em que é obrigatório ficar pelado. Posto isso, vamos
logo de uma vez à mais célebre de todas as praias, a Super Paradise,
freqüentada por hippies nudistas desde a década de 60.
São 10h30 da manhã, o sol brilha forte e você acabou
de chegar. Do ônibus, do alto da colina, olha para baixo e constata duas
coisas: que não há mais ninguém por ali e que, por ser brasileiro,
você conhece pelo menos uma dúzia de Porto de Galinhas e Jericoacoaras
mais bonitas. Mas isso não há de ser nada. Você então pisa na praia e
não vê sinal de areia, pois na Grécia isso, praia com areia, é uma
raridade - elas têm cascalho, rochedos, pedras, pedrinhas, pedrões,
pedregulhos, no mar, nas encostas. A coisa é tão gritante que, se um
certo poeta Carlos fosse grego, seu sobrenome seria Drummondopoulos
e ele jamais escreveria, numa de suas poesias mais famosas, que no meio do
caminho havia uma pedra. Tradução perfeita da natureza de seu país, os
versos seriam assim, com o raciocínio invertido: no meio das pedras havia
um caminho, havia um caminho no meio das pedras. Mas lá está você
deitado numa espreguiçadeira com seu calção - pois numa esteira seria
impossível e lá pelo meio-dia começam a chegar as primeiras pessoas. O
mocinho chega, ajeita suas coisas, tira o maiô com maior naturalidade do
mundo, fica a zero e começa a tomar seu solzinho. Aí chega um grupinho
de amigas; elas passam bronzeador, selecionam um livro, arrancam a
camiseta, livram-se da calça e estão elas absolutamente naturais, como
Eva, mas sem as folhas. Depois vem uma família inteira, pai, mãe,
filhos, avós, tio e primos, todo mundo na maior liberdade. Lá pela 1h da
tarde, se você continuar de calção, saiba que será o único, tão
deslocado quanto um budista numa convenção de surfistas. E, a essa
altura, você finalmente descobrirá que o maior barato dessa praia não
é o visual, e sim o clima que emana dela.
Mais tarde, bronzeado como um Onassis, você viverá a
grande alegria de passear pelo calçadão à beira do mar, desfilando
rente às mesinhas dos bares, pegar a entrada à esquerda e se perder num
labirinto de ruas e casinhas eternamente brancas (para que as casas, as
ruas e até o calçamento sempre fiquem alvos, a administração de
Mikonos chega a pintar o chão de quinze em quinze dias na alta
temporada). E labirinto, aqui, não é figura de linguagem. É labirinto
mesmo, com dupla função. A primeira, útil até hoje, é formar um
corredor de ruas de forma que o forte vento que vem do mar não atormente
a vida das pessoas. A segunda, atualmente em desuso, era confundir os
corsários que queriam saquear os habitantes da ilha - com tantas ruelas
estreitas e tortuosas, se entrassem eles não saberiam sair.
Se você estiver num daqueles dias bucólicos e
contemplativos, pode subir para o alto da ilha e apreciar o perfil das
igrejas de Mikonos em contraste com o azul do mar - para ser preciso, das
365 igrejinhas de Mikonos, uma para cada dia do ano, cada uma dedicada a
um santo diferente. Manifestação de um povo extremamente religioso
(cerca de 95% dos gregos pertencem à Igreja Ortodoxa), a construção
dessas igrejas remete ao tempo em que os pescadores saíam para o mar e
não voltavam mais. A família, então, levantava uma igreja em sua
homenagem. Com o passar do tempo, virou mania e decoração. Hoje, quase
toda família tem uma igrejinha no quintal, usada para batizados, festas
de casamento e outras festividades. Para os turistas, no entanto, funciona
como uma marca registrada das ilhas - em Santorini, o telhado das igrejas
pode ser azul-escuro, ou branco; em Mikonos, é sempre vermelho; em Paros,
azul-claro e por aí afora. Charmosas e graciosas, o fato é que as
igrejas, assim como os moinhos de vento, formam mais um daqueles ícones
que fazem borbulhar o imaginário sobre a Grécia.
Outro ponto que fez a fama do país é a agitação de
sua vida noturna - e, em alguns casos, nem tão noturna assim. Em Atenas,
por exemplo, alguns bares e boates do bairro de Kolonaki tem gente, como
se fosse alta madrugada, dançando em cima das mesas em pleno meio-dia.
Caso você faça amizade com algum grego, prepare-se para passar a noite
brindando copos cheios de ouzo, uma bebida feita à base de anis, e
dizendo dezenas, ou centenas, de yamas, ou saúde em grego. Em ilhas
badaladas como Santorini, se você estiver sem amigos, precisa ser muito
incompetente para entrar numa discoteca e terminar a noite sozinho. O
clima soltinho favorece os encontros. Mas, no caso de Mikonos, tome
cuidado, se você é um conservador: a ilha é conhecida como o paraíso
dos homossexuais - e, note, eles estão dispostos a novas experiências,
quase determinados. A festa é tão grande que uma das primeiras coisas
que se aprende nos 52 bares, 120 restaurantes e 55 discotecas de uma ilha
que tem ínfimos 6,5 mil moradores fixos (e 38 mil turistas por dia) é
conjugar o verbo kamike (em inglês, pronuncia-se camaique), uma espécie
de arpão grego. O sentido da metáfora é óbvio: o esporte nacional aqui
é caçar, ou sendo mais sutil, fisgar um parceiro. Em resumo: aqui se
cobiça o que está perto mesmo.
Se você é tímido, fica realmente pasmo com o ritmo
das conquistas amorosas. Quase não dá para acreditar, da mesma forma que
não dá para acreditar em alguns aspectos dos gregos e da própria
Grécia. O país é diminuto e imenso ao mesmo tempo. Se você observar o
mapa-múndi, vai perceber que a área total da Grécia é menor do que a
do Estado do Acre - ou seja, é como o pingo no último i da palavra
mitologia. Mas, se você somar todas as bordas das mais de 3 mil ilhas e o
tortuoso litoral grego, o resultado dessa equação será a espantosa
cifra de 15 mil quilômetros de costa, ou quase o dobro dos 8 mil
quilômetros do litoral brasileiro.
Também olhando no mapa, as distâncias parecem curtas.
Você vê Atenas e o continente e, abaixo deles, à direita, o
arquipélago das Cíclades. Mais à direita ainda, está o Dodecaneso, as
doze ilhas enfileiradas próximas à costa da Turquia, das quais Rhodes é
a mais conhecida. Abaixo de tudo, está a famosa Creta e o Palácio de
Cnossos, que há quarenta séculos teve a honra de ser o berço da
civilização européia. De acordo com a mitologia, era aqui, no labirinto
do palácio, que morava o Minotauro, monstro metade homem, metade touro.
As ruínas do palácio estão lá para quem quiser vê-las, o Minotauro é
uma lenda e o labirinto subterrâneo jamais existiu. Na verdade, o que
passou para a História como o labirinto era o próprio palácio - algo
imenso, cheio de passagens, salas, quartos, oficinas e corredores, numa
época em que, há 2 mil anos antes de Cristo, Atenas era pouco mais do
que uma aldeia e a moradia das pessoas comuns se resumia à sala e um
quartinho.
Mas, voltando ao território grego, embora esteja
bastante espalhado, a impressão é de que, se você tropeçar em uma
ilha, cai na outra. Não poderia haver erro de cálculo maior. Caso queira
ir de barco de uma ilha à outra, pode levar uma eternidade. De Paros a
Santorini, separados por apenas 30 quilômetros, você gasta 6 horas num
ferry boat, que aqui funciona como uma espécie de táxi marítimo, ou 2
horas de hidrofólio, barco mais leve e mais rápido. De Atenas a Creta,
demora quase um dia de viagem. Se não estiver com pressa, é uma grande
pedida. Você vai fazendo amigos no navio, assistindo a shows, observando
as ilhas passarem na calma do Mar Egeu. Foi, aliás, essa tranqüilidade
que motivou os gregos da antiguidade a construir barcos e se lançar à
aventura do comércio e da conquista de outros povos.
Localizados num ponto privilegiado, a meio caminho
entre o Ocidente e o Oriente, os gregos comercializavam, principalmente,
seu famoso vinho e um dos melhores azeites de oliva do mundo. Em troca,
recebiam cobre de Chipre, frutas do Egito, marfim da Arábia e estanho das
Ilhas da Bretanha, entre outros. Como prosperaram, passaram a ser alvo da
atenção de outras civilizações. Por conta disso, os gregos passaram
boa parte de sua história guerreando contra romanos, venezianos, púnicos,
dórios, bizantinos e mais um sem-número de povos que cobiçaram,
conquistaram e perderam a soberania sobre a Grécia. E foi daí, desse
jogo de poder, da confluência de muitos estilos, influências e culturas,
que surgiu um dos maiores fascínios daqui: a diversidade e a mistura de
todos esses povos que invadiram a Grécia.
Em todo o país, há milhares de igrejas bizantinas,
cujos interiores geralmente são decorados com pedras coloridas, muito
dourado e afrescos maravilhosos - uma das mais bonitas é a Monastiraki,
em Atenas. Em Rhodes, ilha do Colosso de Rhodes, uma das Sete Maravilhas
do Mundo Antigo, você pode ver pelo menos duas imponentes fortalezas
medievais, construídas pelos venezianos. Uma delas, com 14 quilômetros
de muralhas, fica na própria cidade de Rhodes. A outra está na cidade de
Lindos, onde foi filmado Os canhões de Navarone, bem próxima à
espetacular Baía de São Paulo, onde o apóstolo pregou no início do
Criatianismo. Em algumas cidades como Corinto, localizada numa região
conhecida como Peloponeso, as ruínas de uma cidade romana quase completa,
com praça central, depósitos e até fórum. O mais incrível é que,
debaixo dela, está uma outra cidade inteira, construída pelos gregos
séculos antes. Longe de ser um fenômeno isolado, essa sobreposição de
cidades é comum por aqui. Corinto é apenas um exemplo, dentre muitos.
Embora o país também seja conhecido pela riqueza
histórica de suas ruínas, o fato é que os gregos mal desconfiam dos
tesouros que estão escondidos debaixo de seu solo. Basta cavar para dar
de frente com descobertas inestimáveis. A construção do metrô de
Atenas, por exemplo, vive empacada por duas razões: uma é a burocracia e
a outra, mais importante, é que, vira e mexe, as obras têm de parar
porque alguma escavadeira achou uma relíquia qualquer.
Mas não se preocupe: você não precisa ter vocação
para toupeira para apreciar as atrações arqueológicas daqui - a
superfície está cheia delas. Em Atenas, por exemplo, um programa
obrigatório é conhecer de perto o Partenon, o templo que há quase 2500
anos reina soberano no alto da Acrópole. Se você gosta desse tipo de
coisa, não perca de jeito nenhum o Templo de Afaia, na ilha de Higina,
construído quarenta anos antes do Partenon e ainda hoje em excepcional
estado de conservação. Outra jóia de mesmo quilate é a ilha-santuário
de Delos, vizinha a Mikonos, cujas ruínas formam o mais arrebatador museu
a céu aberto do mundo e onde, de acordo com a mitologia, nasceram os
deuses Apolo e Artêmis.
Falando nisso, se você aprecia mitos, lembre-se do que
aprendeu na escola e confira de perto que não há cultura na Terra que
seja mais rica do que a grega. A grosso modo, os povos criavam mitos para
explicar aquilo que estava além do seu conhecimento. Os índios
brasileiros, por exemplo, não entendiam de onde vinha o trovão e
inventaram que ele era produto da ira do deus Tupã. Já os gregos, muito
mais requintados e delirantes, criaram deuses e mais deuses, histórias e
mais histórias, muitas delas entrelaçadas umas às outras, para dar
algum sentido ao destino dos homens e às manifestações da natureza,
principalmente catástrofes como maremotos e explosões vulcânicas. Uma
dessas explosões, inclusive, teria sido a responsável pelo
desaparecimento de Atlântida, a civilização perdida. Mesmo sem ter
qualquer comprovação científica, e até mesmo por isso, muitos gregos
afiançam que a ilha vulcânica de Santorini é o que restou de
Atlântida.
Verdade ou não, a questão é que, quando você
estiver em Santorini - que de fato está localizada no meio de um vulcão
-, a última coisa que vai chamar sua atenção é uma teoria dessas (numa
eleição da ilha grega mais bonita, muita gente votaria em Santorini). É
muito mais fácil ficar interessado pelas pedras negras da praia de Kamari
e pelo charme incontestável e o agito dos bares, discotecas e
restaurantes das cidades de Fira e Óia, geralmente abarrotados na alta
temporada - onde encontrar um brasileiro não é exatamente a coisa mais
difícil do mundo. A propósito, apesar de a Grécia fazer parte dos
sonhos de muitos cariocas, cearenses, paulistas, gaúchos, etc., poucos
deles (em relação ao que seria possível) se lançam a esses mares. Uma
das razões para isso talvez seja a própria idéia de sofisticação que
Onassis saiu vendendo por aí. As ilhas realmente dão essa impressão
(embora na realidade o clima informal prevaleça), mas o fato é que hoje
vir à Grécia está muito longe de ser programa apenas de milionários.
Na Europa, apenas Portugal é mais barato do que Atenas
e suas ilhas. A comida é farta e quase de graça, a maioria dos hotéis e
pousadas cobra preços acessíveis e há ofertas excelentes de artigos de
couro, vasos, cerâmicas, tapetes e anéis, entre outros - para comprovar
isso, basta um passeio de 15 minutos pela Plaka, o bairro antigo de
Atenas. Até mesmo para ir de uma ilha à outra, você desembolsa pouco.
De Mikonos a Santorini, por exemplo, são menos de 15 dólares. Um
cruzeiro de um dia entre Poros, Higina e Hidra sai por cerca de 60
dólares, com almoço incluído. Na baixa temporada, você passa um mês
com algo como 2 000 dólares, fora as compras. Convenhamos que não é
nenhum absurdo pelo que uma viagem dessas oferece.
Fique certo de que, mais difícil do que economizar
esse dinheiro, é conseguir se entender na Grécia. Está certo que muitos
gregos falam inglês - apesar de, em lugares como Creta e Rhodes, ser mais
fácil ouvir alguém falando alemão do que a língua helênica, tamanho o
número de Hanz e Fridas que vai para lá. Mas o ponto dessa questão é
que sua mãe realmente estava certa quando ficava brava e perguntava se
ela estava falando grego. Com exceção das palavras fotografia,
democracia e mais uma ou outra, nenhuma coincide com o português (para
rigoroso, como boa parte de nosso idioma deriva do grego, a semelhança
até existe, só que ela é destruída pela entonação da pronúncia).
Como o alfabeto é diferente, você nem consegue ler as placas - no centro
de Atenas e nas principais ilhas, as placas estão nos dois alfabetos, mas
a verdade é que isso não quer dizer muita coisa, uma vez que você
geralmente precisa passar por lugares onde só há alfas, betas e gamas
para chegar à tábua de salvação do velho e bom a-e-i-o-u. Nessas
horas, o importante é manter o espírito esportivo e perguntar, mesmo que
isso pressuponha apelar para a mímica, apontar para o mapa e desenhar um
ponto de interrogação no ar. Sempre resolve.
Para muita gente, no entanto, uma operação dessas é
um negócio arriscado, devido à outra fama dos gregos, além da de
mulherengos: a de estarem sempre mal-humorados. Na verdade, isso é uma
roleta. Como em qualquer lugar do mundo, existe tanto gente que,
espontaneamente, pára e dá informações quando vê que você está
perdido quanto pessoas que passam reto quando são interpeladas. De
qualquer modo, há uma maneira de tirar proveito desse lendário mau
humor. Como eles são realmente apegados a uma discussão, fique por perto
quando começarem o bate-boca. Mesmo que você não entenda nada, será um
grande espetáculo: o tom de voz vai subindo, a gesticulação aumenta, os
olhos faíscam.... e aí os caminhos se bifurcam: ou eles se insultam até
o nascer do sol do dia seguinte ou, então, sem mais nem menos, dão mais
um grito e, de repente, abraçam-se, beijam-se, choram até, como bezerros
desmamados, e depois vêem o sol nascer brindando ouzos e bradando yamas.
No fundo, são sentimentais esses gregos.
Outra característica deles, bem menos difundida, diz
respeito a o que eles cobiçam quando o assunto é turismo. De novo, faça
o teste: pergunte a um grego qual o lugar do mundo que ele mais quer
conhecer. Surpresa: dentre cada dez respostas, oito será o Brasil. Além
disso, não é difícil um grego se empolgar e ainda perguntar: "mas
o que você está fazendo aqui? Eu é que queria estar lá!". Bem,
nós temos areias finas, coqueiros, o Cristo Redentor e Carnaval. Já
eles, até mesmo por causa das pedras, têm praias inacreditavelmente
belas. Têm o Mar Egeu e suas ilhas magníficas, uma diferente de outra e
semelhantes apenas no que diz respeito ao charme. Têm ainda ruínas
inestimáveis e uma cultura que transformou o mundo. Eles possuem tudo
isso e querem vir para cá. Nós temos outras qualidades e não vemos a
hora de partir para lá. O resumo da ópera é que, para desejar algo, é
imprescindínel não possuir essa coisa - ainda mais se você cresceu com
ela, ouvindo falar de suas histórias e façanhas e sonhando com suas
belezas e prazeres. E fique certo: se a Grécia é perfeita nos sonhos,
como realidade ela é melhor ainda.
Acrópolis, em grego, significa cidade (polis) alta (acro).
Como, na história dos povos, tudo o que fica no alto também significa
proteção, o morro onde hoje está o Partenon é habitado desde a
Pré-História - há indícios de moradores em 1100 antes de Cristo. Seis
séculos depois, em 447 a.C., Péricles, inventor da democracia de um só
(ele mesmo), ou da ditadura disfarçada, dava proteção militar aos
aliados nas ilhas e, em troca, recebia um monte de dinheiro. Com sobra no
caixa, lembrou-se de construir, no alto da Acrópole, um templo em
homenagem à deusa Atena, protetora da cidade, em substituição a um
outro, destruído pelos persas. Surgia aí o Partenon, o mais famoso
cartão-postal de Atenas, com 70 metros de altura e 30 de comprimento. A
seu lado, ainda hoje estão o Templo de Atena Vitória, o Teatro de
Dionísio, o Odeon de Herodes Atticus, que, depois de restaurado, funciona
hoje como palco de concertos, e as Cariátides, colunas esculpidas com
figuras femininas. Se você nunca esteve lá, saiba que é impressionante
a sensação de pisar num lugar construído há 2500 anos.
A capital da Grécia é uma cidade grande - nela, moram
4 dos 10 milhões de habitantes do país. Na maior parte do tempo, é
poluída e tem um trânsito caótico e, no verão, é abafada. Mas
desconte esses inconvenientes e usufrua suas atrações. Como esse é
ponto de partida de uma viagem pela Grécia, você fatalmente vai passar
uns dias aqui. Para se hospedar, tente o Divani Caravel, de luxo, com
diária para casal entre US$ 110 e US$ 130, que fica na Avenida Alexandrou,
2, 0030 (1) 725-3725, ou o Hotel Chandris, na Avenida Singrou, 385, 0030
(1) 930-8000, cujas diárias para casal estão por volta de US$ 135. Se
quiser ficar bem no centro, aqui vão mais duas opções: o caro e chique
Meridian, na Praça Syntagma, 0030 (1) 325-5301, com diárias por US$ 300,
ou o mais modesto Electra, na Ermou, 5, 0030 (1) 322-3223, que cobra US$
140 por dia. Para se divertir, vá direto aos bares do bairro de Kolonaki,
que no verão têm mesas na calçada. Um dos mais agitados é o Jackson
Hall, numa pequena rua chamada 4 Millioni. Tem três andares e, se quiser,
dá para dançar ao meio-dia como se fosse duas da madrugada. Para comer
frutos do mar, uma pedida é ir a Pireus, a 30 quilômetros do centro de
Atenas. Há vários restaurantes lá, como o Aglamer, no final da Marina
de Microlímane, e muitos bares no cais, como o Porsche Café. Com US$ 40
um casal come muito bem. Outra opção é seguir para a Plaka, o bairro
antigo de Atenas. Tente o restaurante Hermion, na Rua Pandrossou, 15, ou
qualquer outra taverna que você vá com a cara. Aproveite que está por
lá e vasculhe as lojinhas da Plaka, com artigos de couro, casacos,
cerâmicas, tapetes, anéis (os gregos trabalham eximiamente com ouro e,
principalmente, prata) - o preço de um anel varia entre US$ 5 e US$ 100,
dependendo da qualidade do trabalho. Na Gold Dalphins, na Rua Pandrossou,
11, há excelentes jóias, algumas bem caras.
Muita gente acha que Santorini é a ilha mais bonita da
Grécia. De fato, o desfile de cenários começa antes de pisar na ilha,
no mar, quando se chega de navio e vêem-se os penhascos coloridos,
coroados pelas duas principais cidades daqui: Óia e Fira, a capital. Uma
fica perto da outra, têm casinhas brancas e igrejas debruçadas sobre o
mar, moinhos de vento e agito de sobra. Há cerca de 400 hotéis na ilha e
quase todos os moradores alugam quartos para os turistas, com diárias
entre US$ 10 e US$ 100, conforme a época e a procura. Para se hospedar em
Óia, verifique se há vagas no Oia Mare Villas, 0030 (286) 71-070, cujos
quartos foram escavados no penhasco, com diárias na faixa de US$ 130. Se
preferir na praia, em Kamari, há um simpático hotel, o Roussos, 0030
(286) 31-590, com preços entre US$ 80 e US$ 120 para casal. Há
restaurantes por toda parte. Para comer muito bem e num lugar bonito, vá
ao Alexandria, ou ao Nokolás, em Fira. Em Imerovigli, perto de Fira, há
outro belo restaurante, o Blue Note, encravado numa paisagem deslumbrante.
Nenhum deles é barato (US$ 60 o casal), mas vale a pena. Depois percorra
as lojas de grife (de vez em quando dá para encontrar algo mais em conta)
e de jóias. Em Fira, uma sugestão é a Joalheria Flora, simples porém
honesta - com US$ 20 dá para comprar anéis bem bonitos, de prata. Para
cair na gandaia, vá dançar no Koo Club, também em Fira, cuja entrada
custa algo como US$ 8. Depois da meia-noite, pega fogo.
Se você gosta de agito, bem-vindo a Mikonos. Lá
pela década de 70, só havia os pescadores nativos e alguns hippies. Nos
anos 80, virou moda e foi adotada pelos gays. Hoje, é um lugar
incomparável, com turistas convivendo com todas as tribos locais. Tem
praias lendárias para nudistas, como Paraga, Paradise e Super Paradise,
românticas como Agios lanni (foi aqui, no Restaurante Sunset, que Shirley
Valentine fisgou o seu grego), e outras que estão sendo descobertas agora
(é o caso de Kapari). Como em Santorini, os moradores alugam quartos para
turistas - o que é mais do que providencial, uma vez que os hotéis de
Mikonos são caros. E eles custam muito não porque tenham um serviço
excepcional ou confortos impagáveis, mas sim porque oferecem as melhores
vistas da ilha, se der, tente se hospedar no Hotel Elysium, 0030 (289)
23-952, ou 24-210, no Belvedere, 0030 (289) 25-122, ou 25-125. As diárias
de ambos estão na casa dos USS 120. Na praia de Agios Stefanos, para
ficar em grande estilo, faça reservas no Princess of Mikonos, o preferido
de Jane Fonda, na mesma faixa de preço, 0030 (289) 23-031. Para se
divertir, vá ao entardecer ao portinho e ao Little Venice, e fique indo
de bar em bar. Não deixe de ir ao Caprice. Se você assumido ou
simpatizante dos homossexuais, siga mais tarde para o Bar Icarus ou para
Piero´s.
Preços: principalmente os de hospedagem, são um
samba do crioulo doido. A coisa é como no Brasil da época da inflação,
onde havia um preço na etiqueta, outro a prazo e assim por diante. Ou
seja, o hotel custa x, mas se houver procura vai para 2x, se não, recua
para y. A regra funciona para cruzeiros, aluguel de veículos, lojas da
Plaka e por aí afora. Trânsito: em Atenas, olhe dez vezes antes de
atravessar a rua e, quando tiver certeza de que dá, olhe mais duas. Se
bobear, os motoristas agem como bolas de boliche em direção aos pinos. Furtos: as ilhas, ou mesmo Atenas, não são
violentas. Mas, como em qualquer lugar que há turistas, existem gatunos
prontos a fazer a festa com câmeras, bolsas e carteiras. Por isso, não
vacile, que eles são rápidos. Assédios: em alguns bares e discotecas, o povo se
empolga na madrugada. Nessas horas, é quase impossível que alguém não
venha abordá-lo. Se não interessar, diga apenas não, educadamente -
pode não ser natural para você, mas para eles é.
Creta é a maior ilha grega, com cerca de 250
quilômetros. Foi aqui, no Palácio de Cnossos, que nasceu a primeira
civilização européia, há cerca de 4 mil anos. Até hoje, as ruínas do
Palácio estão lá, abertas aos turistas. Mas isso está longe de ser a
única atração de Creta. As paisagens são tão diversificadas que, em
abril e maio, por exemplo, é possível ver, ao mesmo tempo, montanhas com
picos nevados (como o Monte Psilorítis, com 2 500 metros de altura) e
campos verdes, com oliveiras e videiras. Há praias lindas como as que
ficam perto de Agios Nikolaos, e lendárias, como Mátala, onde os hippies
moravam nas cavernas. Para quem gosta de caminhadas e belas há ainda o
incrível paisagens, desfiladeiro de Samaria Gorge. Creta tem duas cidades
principais: Retmino e Heráclio, a capital. Se quiser ficar em Retmino,
tente um quarto no Fortesta, na Rua Melisinou, 16, 0030 (831) 55-551, com
diárias por US$ 80. Em Heráclio, você tem desde hotéis cinco estrelas
a pousadas baratinhas. Para ficar no meio termo, tente o Hotel Galaxy, na
Avenida Dimokratias, 67, 0030 (81) 23-8812, ou 23-2157, cujas diárias
estão na faixa de US$ 100. Em Agios Nikolaos, uma opção é o Minos
Beach, que fica numa praia particular, a llia Otiru, 0030(841)22-345, com
diárias por volta de US$ 95. Para comer, há restaurantes por toda parte.
Em Heráclio, para conhecer a comida típica, tente O Kyriákos, na
Dimokratias, 53. Duas pessoas jantam muito bem por, US$ 40. Se você
estiver num dia para aventuras, vá ao Oyzepi, na Rua Marinelli, 17, onde
o cardápio só tem caracteres gregos. Aponte para quatro ou cinco pratos,
um do começo, outros do meio e o último do fim. Vai vir comida para
burro e dificilmente a conta, para um casal, vai passar dos US$ 25, com
vinho. Depois de uma alegria dessas, queime as calorias extras no Vapori
CIub, também em Heráclio.
Além das influências bizantina e romana, outra grande
característica de Rhodes é ser o grande centro hoteleiro das ilhas gregas.
Por todos os lados, estão cerca de 500 hotéis, boa parte deles um tanto
decadentes. Mas isso é detalhe, principalmente para a legião de alemães
que invade a ilha para tomar sol em praias como a Baía de Anthony Quinn,
talvez uma das mais bonitas da Grécia, e apreciar as atrações medievais
da Fortaleza de Rhodes, ou da Fortaleza de Lindos, que fica ao lado da
Baía de São Paulo. A maioria dos hotéis se concentra na Praia de
Faliraki, com suas dezenas de restaurantes, bares e lojas, onde é
possível encontrar calças Calvin Klein falsificadas por US$ 15 e
camisetas Armani por US$ 4.
Julho é o mês mais quente na Grécia. Nas ilhas do
Mar Egeu, a temperatura chega fácil aos 32 graus e, às vezes, encosta
nos 40. Em maio, na primavera, é bem mais agradável, ficando na faixa
dos 25. Como as ilhas ficam longe umas das outras e é preciso
uma operação intrincada para montar um roteiro com hospedagem, acaba
sendo mais negócio comprar um pacote do que ir por conta própria. Há
várias agências que o vendem, sendo que a maior é a Salt Lake, de São
Paulo (011) 885-5522.
Aproveite para pegar um bronzeado nas ilhas e, se for solteiro, um
romance na bagagem. Saiba que gregos fazem ótimas malhas de fios
trançados que custam uma pechincha, algo como US$ 20. Não deixe de comer
um moussaka, uma especialidade da casa e para se locomover em Atenas, os táxis são baratos.
Para ir de uma ilha à outra, pegue um ferry boat. Nas ilhas, você pode
alugar carro, lambretinha ou bicicleta. Os preços costumam ser bem em
conta. Como vai estar quente nas ilhas, use roupas leves. A
noite, o uniforme é jeans e camiseta para os homens e vestidos curtos
para as mulheres. Na maioria das praias, no entanto, você não vai ter de
se preocupar com o que vestir, já que ninguém usa nada.
A Grécia, principalmente nas ilhas, é como uma loja:
que abre em abril e fecha em outubro, período em que o sol faz a lenda
brilhar. O auge da temporada é entre maio e agosto. Entre novembro e
março, com o frio, fica quase deserta. Em Atenas, há vários quiosques do Turismo Nacional da
Grécia (EOT) espalhados pela cidade. A agência Veramundo tem
funcionários que falam português, mas só vende no varejo. Mesmo assim
recorra a ela se estiver em apuros. Fica na Rua Apollonos, 5, 322-5830.
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